Quando estamos falando sobre criptomoedas, existe uma certa briga para ver quem foi a pessoa que investiu no Bitcoin antes de todo mundo. Esse tipo de papo é tão frequente que até a Receita Federal falou que ela sabia da tecnologia antes de todo mundo – dando origem ao fabuloso slogan “Satoshi Nakamoto is Brazilian”.

Mas convenhamos, a maioria das pessoas começou a ouvir falar de criptomoedas aqui no Brasil após 2010, quando o assunto ganhou um pouco de espaço na mídia convencional. Quem era capaz de consumir a mídia internacional talvez tenha se adiantado e por volta de 2008 já tivesse algum contato com algum contato com projetos parecidos.

Eu particularmente comecei minha relação com as criptomoedas em 2013, quando comecei a minerar na Slush’s Pool usando uma GeForce 640M de um notebook recém comprado – que inclusive estou usando para digitar este artigo. Ganhei 0.01 Bitcoins na época, e depois tive que sair do ramo para começar a trabalhar “de verdade” (sic). Uma coisa que eu aprendi foi que muita gente tinha ouvido falar das criptomoedas, mas pouquíssimas pessoas realmente haviam investido ou ao menos pesquisado sobre.

Mas então, quem e quando foram criadas as criptomoedas? Como já diziam os cientistas: para toda pergunta complexa existe uma resposta simples, rápida e errada. O consenso do mercado diz que a “invenção” das criptomoedas foi feita no da 31 de outubro de 2008, ás 18h10, através da publicação feita na lista de e-mails Gname, pelo anônimo Satoshi Nakamoto. Neste dia, 18h de uma sexta-feira de Halloween, estaria sendo “registrado” o primeiro aparecimento de uma criptomoeda. É uma ideia razoável, tendo em vista que o Bitcoin tornou-se a mais popular das criptomoedas.

Entretanto, existem alguns problemas com esta concepção.

Estamos falando sobre criptomoedas, e não especificamente sobre o Bitcoin. E apesar do Bitcoin ter sido a primeira ideia a vingar, isso não significa que não houveram outros artigos igualmente relevantes para o mundo em momentos anteriores ao nascimento do próprio Bitcoin. Quer dizer, quem poderia garantir que todo o trabalho do Satoshi Nakamoto não seria apenas uma cópia ou interpretação de outra proposta?

Outro problema com essa concepção é que o domínio principal usado para a propagação do Bitcoin foi registrado em 18 de agosto de 2008, ás 13h19. Quer dizer, quando o artigo foi publicado, já existia uma certa “estrutura” muito bem moldada por debaixo dos panos. Talvez o conceito de criptomoedas tivesse sido inventado bem antes disso.

Além disso, existem artigos bem mais antigos que visam métodos computacionais de prova (como é o caso do Proof Of Work, que é central para a construção das criptomoedas), então era possível que as criptomoedas tivessem sido inventadas antes disso, mas que nenhuma dessas aplicações tivesse recebido a devida atenção e, portanto, não caberia ao Bitcoin ser chamado de pioneiro.

7 “criptomoedas” que vieram antes do Bitcoin

ECash

Um criptógrafo famoso da época chamado David Chaum desenvolveu um projeto chamado ECash em 1982 (e lançado em 1983), sendo implementado com as devidas patentes em 1990, através de uma empresa chamada DigiCash. Este projeto inclusive chegou a ser implementado no US Bank, Credit Suisse e no Deutsche Bank, mantendo grande parte da filosofia que atualmente as criptomoedas pregam, como o anonimato. A DigiCash faliu em em 1998, graças ao crescimento do uso do cartão de crédito no e-commerce. Uma questão importante que merece ser mencionada sobre David Chaum é que ele também desenvolveu um método de votação em 1981, que hoje se assemelha muito a proposta de democracia de criptomoedas como o Decred. Hoje David Chaum é considerado o pai do anonimato na internet.

E-Gold

Em 1996, um oncologista (sim, o médico que trata o câncer) e o advogado Barry Downey lançaram uma empresa chamada E-Gold, que visava transferir a propriedade de ouro entre seus membros através de uma carteira pública. Esta empresa foi a primeira que não era de cartão de crédito a implementar o conceito de transações instantâneas em uma API e também foi a primeira usar Exchanges de fora da própria empresa para criar uma relação entre uma moeda digital e uma moeda FIAT. O E-Gold foi fechado nos anos 2000 após a mão do governo.

Beenz

Em 1990, Charles Cohen tentou desenvolver uma moeda totalmente digital chamada Beenz, que possibilitava a compra de produtos e serviços na internet através de uma moeda completamente digital. Além disso, a moeda utilizava conceitos de arbitragem para poder operar em diversos cantos do mundo de maneira independente. É importante destacar que eles possuíam um aplicativo (na realidade, um Java Applet) para poder realizar as transações.

Flooz

Nascida em 1999 como concorrente do Beenz, a ideia era praticamente a mesma. Entretanto, o projeto ficou mais famoso por ter sido usado em esquemas de tráfico de informações de cartões de crédito e lavagem de dinheiro. Inclusive seu CEO, Robert Levitan foi acusado de realizar compras fraudulentas com 19% de todos os cartões de crédito cadastrados na plataforma.

B-money

Em 1998, um cyberpunk chamado Wei Dai criou uma criptomoeda chamada B-money. Ele registrou sua patente em conjunto com a Microsoft. Seu projeto é extremamente interessante pois usava o Proof of Work para a mineração. Além disso, reza a lenda que ele tanto ele quando um outro criptógrafo famoso chamado Adam Back – o inventor do Hashcash – foram as primeiras pessoas a entrarem em contato com Satoshi Nakamoto após o lançamento do seu Whitepaper. Inclusive o B-money é referenciado no whitepaper do Bitcoin.

Bitgold

No mesmo ano, em 1998, outro criptógrafo famoso e que ainda faz parte do cenário das criptomoedas atualmente, Nick Szabo, considerado o inventor da tecnologia dos Smart Contracts, iniciou seus trabalhos com o Bitgold, uma plataforma monetária descentralizada que foi considerada a precursora da arquitetura do Bitcoin. Seu trabalho só foi finalizado em 2004, após o trabalho do criptógrafo que veremos a seguir.

RPOW

Em 2004, o criptógrafo Hal Finney desenvolveu um modelo reutilizável de Proof of Work baseado no trabalho do Adam Beck. Quando o projeto tomou forma de criptomoeda, foi dado o nome de RPOW, que combinado aos projetos do Adam Back e do Nick Szabo, deu origem a outras criptomoedas. Infelizmente Hal Finney veio a falecer em 2014 graças a uma doença chamada esclerose lateral amiotrófica, a mesma que o físico Stephen Hawking possui.

E ai?

Todos os conceitos apresentados previamente tratam de criptomoedas usando um modelo muito anterior ao do Bitcoin. Como mencionei no início do texto, é possível e provável que o Bitcoin tenha sido somente o compilado mais popular de todas as outras.

Apesar de compreender que todo esse background teve seu peso, é importante destacar que ser pai das criptomoedas é uma responsabilidade muito grande para ser passada para uma única pessoa. Se nós começamos a conversar sobre David Chaum em relação as criptomoedas, por que não deveríamos falar sobre o livro The Principles of Science, de 1874, que citava pela primeira vez um modelo de algoritmo “one way”? Por que não citar Ralph Merkle, Whitfield Diffie e Martin Hellman, criadores dos conceitos de trocas de chaves de Diffie-Hellman e da árvore de Merkle? Por que não citar Neal Koblitz e Victor S. Miller, que desenvolveram o método de Criptografia de Curva Elíptica que é usado amplamente em praticamente todas as criptomoedas existentes?

E que conclusões podemos tirar deste artigo? A primeira é que as criptomoedas tem muitos pais diferentes e todos eles são relevantes para justificar o crescimento do cenário atual. A segunda é que se você realmente quiser se tornar o “visionário da mesa do bar”, diga que você está holdando DigiCash e que tem uma Exchange de E-gold. Você vai parecer descolado (e muito provavelmente pobre).

Fonte: Portal do Bitcoin

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